Indústria e comércio: interdependentes e integrados

0
3387

Por Darci Piana*


Darci Piana

Alguns fatores contribuíram para elevar a participação do produto importado no consumo interno: sobrevalorização do real-R$, disponibilidade de financiamento,  emprego em alta associado a padrões de remuneração média mais elevados, maior poder aquisitivo. Dentre os efeitos dessa combinação está a queda do desempenho da indústria brasileira.

Dados de 2011 apontam uma participação de 20% de produtos importados no total do consumo interno brasileiro. Acrescentando-se  a participação de importados com entrada não legalizada, próxima a 5%, chega a 25% a fatia do exterior no consumo interno.

A produção nacional teria então uma participação ao redor de 75% no consumo interno, ou seja, um desempenho que implica em queda na produção industrial, substituída pela demanda de bens de origem externa.

Por um lado, esse perfil tem criado limitações à indústria brasileira, obrigada a suportar uma pesada carga de ônus: trabalhistas, tributários, previdenciários e outros, que repercutem sobre o preço final e limitam a competitividade, frente à globalização nas economias.

Por outro lado, existe uma extensa estrutura do setor empresarial privado, onde parte expressiva dos negócios ocorre via importados que entram legalmente no país, pagam tributos e atendem consumidores dispostos a adquirir  produtos gerados  do exterior.

Justifica-se a adoção de políticas de expansão da produção industrial interna e ampliação da utilização da capacidade produtiva instalada, importantes para iniciar um processo de recuperação  industrial. A interdependência cada vez maior entre setores, países e economias, justifica a adoção de precauções necessárias a fim œnão desvestir um santo para vestir outro .

No contexto das adequações possíveis, o governo brasileiro anunciou um pacote de providências econômicas no valor de R$ 60 bilhões, de cunho tributário, alfandegário, trabalhista e previdenciário, destinadas a melhorar o desempenho da indústria. Algumas das providencias não deverão produzir efeitos imediatos. Os  entraves burocráticos permanecem intocáveis. Existe ainda um espaço para enrijecer a fiscalização nas entradas de aeroportos, no sentido de conter o volume elevado de gastos do turista brasileiro no exterior.

A expectativa é de que as providências divulgadas possibilitem  melhorar a competitividade industrial, a entrada de novas empresas, e iniciem  um redirecionamento que possa beneficiar o setor.  O governo deu um passo importante, mas ainda não suficiente.

No entanto, numa economia cada vez mais interdependente, com extensa rede de interações e efeitos multiplicadores diretos e indiretos, surge uma pergunta: e os demais setores como ficam?

Dentre os demais setores, cabe destacar o comércio, atividade detentora de crescimento persistente e significativo no triênio 2009-2011 na composição do PIB, sendo o segundo maior gerador de empregos de 2008 a 2011 (dados do Ministério do Trabalho e Emprego). O comércio disponibiliza e faz chegar ao consumidor os bens produzidos pela indústria e agricultura.

Nesse momento estratégico de tomada de decisões destinadas a estimular o sistema produtivo, o governo brasileiro não pode se arriscar a comprometer os demais setores, focando benefícios, isenções e desonerações apenas para um segmento. As demais atividades econômicas legalmente instaladas, recolhedoras de impostos, geradoras de emprego e renda, que se submetem à pesada carga dos inúmeros componentes do œcusto Brasil , também se fazem merecedoras da atenção das autoridades governamentais.

Não se reivindica o œpassar a mão na cabeça . Num processo de diálogo com as autoridades federais, é importante que outros setores sejam ouvidos e possam levar ao governo as dificuldades do dia a dia.


* Darci Piana é Presidente do Sistema Fecomércio Sesc Senac Paraná.

..

Comments

comments