Palavra de Presidente – Caminhos para o futuro

Palavra de Presidente – Caminhos para o futuro

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Acacio Queiroz
Acacio Queiroz

Por Acacio Queiroz*


Mesmo com a concretização de um novo período de alta da taxa básica de juros, anunciada pelo Banco Central, as perspectivas para a economia brasileira mantêm-se extremamente positivas. Consultorias e áreas de pesquisa de grandes instituições financeiras já revisam para cima as projeções de crescimento do PIB em 2010. Exceto pela ocorrência de um cataclismo, no curto prazo nosso destino está traçado. A questão agora é saber como vamos lidar com o que está além desse horizonte.

A própria incapacidade de nossa economia para lidar com a demanda atual foi o motivo para a elevação dos juros. Fica evidente, portanto, a necessidade de investimentos, tanto do setor público quanto da iniciativa privada. A dificuldade do governo para direcionar recursos a obras de infraestrutura, inclusive, apresenta-se como um entrave à manutenção do atual ritmo de crescimento. Diante dessa realidade, parecem equivocadas algumas ideias de criação de estatais voltadas a suprir demandas às quais a iniciativa privada já está apta a atender.

Exemplos marcantes estão na área financeira, uma das mais competitivas e na qual o governo já é bastante atuante. A proposta de criação de duas seguradoras públicas, uma para garantir exportações e outra para obras de infraestrutura, são amostras de uso de recursos escassos do Tesouro em ações para as quais a estrutura existente no mercado já é capaz de fazer frente às necessidades.

Em grandes projetos, as seguradoras formam consórcio para dividir os riscos e ainda repassam os excedentes ao mercado ressegurador, que, na verdade, suporta os grandes contratos de seguros. O mercado de resseguros, inclusive, é outro setor no qual o governo ainda apresenta grande participação. Isso porque, mesmo com a quebra do monopólio estatal, o IRB Brasil RE fechou 2009 com 80% de participação de mercado. Com estrutura de capital divida meio a meio entre o Tesouro Nacional e um pool de 25 seguradoras privadas, o IRB agora está na mira do Banco do Brasil, que já publicou fato relevante sobre a compra da parcela do Tesouro.

Nesse sentido, não vejo problemas na competição das seguradoras privadas com as ligadas às empresas controladas pelo governo. Recentemente o Banco do Brasil também anunciou aliança com a Mapfre, para atuação no desenvolvimento e comercialização de produtos de seguros em diversos segmentos. O maior banco do país revelou ainda sua intenção de internacionalizar a área de seguros, graças à capilaridade conquistada a partir da aquisição de instituições bancárias em outros países.

Internamente, os bancos controlados pelo governo saíram-se muito bem no auge da crise, em 2009. Enquanto as instituições privadas mostraram-se extremamente conservadoras e retraíram suas participações no mercado de crédito, o Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal ampliaram o volume de recursos disponibilizado a pessoas físicas e a empresas.

Não há como negar, inclusive, que tiveram um papel relevante no momento em que o governo teve de agir para manter a confiança dos mercados na capacidade de o país atravessar as turbulências. Ainda que essas entidades demonstrem sua importância em oportunidades como a citada, é preciso lembrar que já estão estruturadas e são capazes de financiar as próprias estratégias de negócio. Por outro lado, investir recursos escassos da União na estruturação de novas empresas estatais no setor financeiro representa um desvio importante do foco a ser mantido pelo país.

Já conhecemos os riscos da estratégia de manutenção do crescimento por meio do uso abusivo de poupança externa. Os problemas verificados na década de 1980 deixaram marcas ainda presentes na memória de boa parte da população. Paralelamente, não temos como chegar nem perto do índice de poupança registrado pela economia chinesa, em torno de 40% do PIB, que nos permitira manter taxas de crescimento econômico como o observado neste primeiro trimestre de 2010.

Isso porque vivemos uma realidade infinitamente diferente, na qual o regime democrático convive com uma grande desigualdade social. A pobreza ainda marcante na base da pirâmide nos impede de sonhar com a ampliação da taxa de poupança interna para muito além dos 20% do PIB. Precisamos, portanto, ser capazes de direcionar recursos escassos de investimento para projetos e atividades realmente essenciais, sob o risco de perdermos essa janela de oportunidade para concretização do sonho de construção de uma grande nação.


*Acacio Queiroz é economista, presidente & CEO e presidente do Conselho de Administração da Chubb Seguros, subsidiária brasileira da Chubb Corporation, um dos maiores grupos seguradores do mundo.

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Fonte: Revista Seguros em Foco®

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