Elas têm a Força

Elas têm a Força

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Elas estão por toda parte.

Várias pesquisas apontam que as mulheres já estão dividindo meio a meio com os homens o mercado de trabalho. Em alguns setores da economia, aliás, elas já são maioria esmagadora. Mas, e no setor de seguros, qual a fatia ocupada pelas mulheres?

Ileana Iglesias Teixeira MouraNão dá para responder a essa pergunta de maneira simplista. Para entendermos melhor a participação feminina no mercado de seguros, é preciso, primeiro, segmentá-lo.

A maioria dos corretores de seguros (e corretoras, é claro), nem piscam ao afirmar que as mulheres já são maioria no universo das seguradoras. E nem é preciso ser um especialista em estatística para comprovar isso: basta entrar em qualquer seguradora e dar uma olhadinha rápida. Segundo uma pesquisa informal da Revista Seguros em Foco® com as principais seguradoras instaladas no Paraná, a média é de 06 mulheres para cada 10 funcionários de seguradoras. Já no universo de funcionários de empresas corretoras de seguros, esse número cai para 46%. E segundo dados disponíveis no site da Fenacor, atuam hoje, no país, 29.951 corretores de seguros do sexo masculino e 16.171 do sexo feminino. Outro dado interessante, a maioria dos homens atuam em todos os ramos, mas a maioria das mulheres atuam exclusivamente em vida. “Benefícios é uma área em que as mulheres transitam com mais naturalidade”, explica Ileana Iglesias Teixeira Moura, que durante anos foi Presidente da Centauro Seguradora, e hoje faz parte do Conselho de Administração. “O seguro de benefícios é muito atrelado à alma feminina. A hora da decisão da compra de um seguro de vida, de saúde ou de previdência, é um momento que envolve uma decisão familiar, onde a opinião da mulher tem um peso maior. Isso explica o porquê de, no ramo de benefícios, tantas corretoras mulheres obterem sucesso”, analisa Ileana.

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Ana Carolina Ferraz de Campos BolduanÁrea comercial, o primeiro degrau

Após anos escondidas atrás de mesas, no início dos anos 90 as mulheres começaram a alçar vôos maiores. E a primeira escala foi o departamento comercial das empresas. E não demorou muito para o mercado descobrir que as mulheres têm um jeito todo especial para atuar na área comercial. “As mulheres têm um jeito mais delicado, porém firme, de tratar de negócios, inspirando confiança, principalmente pelo fato da mulher olhar no olho quando conversa”, analisa Ana Carolina Ferraz de Campos Bolduan, Diretora da Centauro Seguradora. “Além disso, quando gosta do que faz, a mulher é mais apaixonada pelo trabalho”, complementa Ana Carolina.

Pode parecer um contra-senso, mas o fato de ter ficado tanto tempo atrás das mesas deu uma bagagem técnica muito útil para as mulheres, o que se revelou uma vantagem sobre os comerciais daquela época. “quando eu passei do departamento técnico para o comercial, eu cheguei com um conhecimento técnico que o pessoal comercial daquela época não possuía”, lembra Ivone Macedo, Head da Zurich Seguros em Curitiba. Esse fator favoreceu muito os primeiros vôos das mulheres no mercado de seguros, que se destacavam cada vez mais dentro das áreas comerciais das seguradoras.Ivone Macedo

Hoje, no Paraná, se contarmos apenas o departamento comercial das seguradoras, as mulheres já chegam perto de 70% do quadro comercial. Conquistado o departamento comercial das empresas, as mulheres passaram a se destacar e atingir novos patamares dentro das empresas: os cargos de decisão.

Apesar do pouco tempo, a ascensão feminina no mercado de seguros veio de forma natural, e rápida. “A minha busca pela ascensão e pelo crescimento não foi pra romper a barreira ‘eu sou mulher e tenho de conseguir’. Meu objetivo era ‘eu sou competente e vou chegar a algum lugar'”, exemplifica Elenicia F. Krisanoski, Gerente da Filial Batel da Liberty Seguros, em Curitiba. Elenícia, aliás, foi uma das pioneiras no mercado do Paraná, tendo sido a primeira mulher a assumir um cargo de gerência comercial no Estado, em 1996.

Elenicia F. KrisanoskiTodas as mulheres que hoje ocupam cargos que até pouco tempo atrás eram redutos masculinos, chegaram aonde chegaram pensando individualmente, com o objetivo de se realizar profissionalmente, mas acabaram por fazer um trabalho coletivo fantástico.

E a responsabilidade era grande. Se essas pioneiras não tivessem tido êxito como líderes, as portas poderiam ter se fechado, e as mulheres da atual geração poderiam não ter a chance de mostrar sua capacidade.

Nenhuma das entrevistadas pela Revista Seguros em Foco® tinha real noção da importância que a geração delas teve – e tem – para que a geração de mulheres Luiz Henrique de Menezes Durekseguinte pudesse almejar cargos de gerência e diretoria com naturalidade. Afinal, há pouco mais de 15 anos atrás, as mulheres no mercado de seguros ocupavam somente cargos administrativos e, mesmo assim, sem nenhum poder de decisão no dia a dia das empresas.

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O “jeitinho” feminino

Há um consenso entre os especialistas em RH: se as mulheres não tivessem alcançado cargos de chefia e decisão, as empresas seriam bem diferentes das de hoje. Segundo eles, muito da evolução no trato com o cliente consumidor, na qualidade dos produtos e serviços, além da melhora no ambiente de trabalho dos funcionários se deve à visão feminina dos negócios das empresas.

Silvia Panini Abati“As mulheres são mais sensíveis. Elas percebem no ar qualquer mudança dentro da empresa”, destaca Luiz Henrique de Menezes Durek, Gerente Regional da Itaú Seguros, em Curitiba. Para Durek, que tem cerca de 70% de sua equipe formada por mulheres, uma outra característica feminina chama a atenção nas empresas: a fidelidade com relação às decisões. “Nas reuniões elas podem reclamar, discutir, discordar, mas tomada uma decisão, elas fazem 100% do combinado”, explica.

A lógica e a forma de reação realmente varia muito entre homens e mulheres. Para Silvia Panini Abati, sócia da Boston Corretora de Seguros, a explicação é simples: “A mulher é sentimental, e o homem é racional. Isso faz com que o homem seja mais objetivo nos negócios, e a mulher mais intuitiva e detalhista”. Mas como lidar com esse turbilhão de sentimentos feminino no mundo dos negócios? Durek tem um segredo: “Tenha sempre chocolate na sucursal”, brinca.

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Yin e YangAriadne Tomczak

Mas é na forma de tomar uma decisão que a diferença entre homens e mulheres mais aparece. Em cargos de chefia e liderança, o tipo de decisão varia muito do homem para a mulher.  O homem funciona melhor sob pressão, quando a decisão necessita ser rápida. Já as mulheres demoram mais para tomar uma decisão, mas dificilmente elas erram quando decidem. “O homem, quando precisa decidir, decide e pronto. As mulheres avaliam muitas variáveis, dando mais atenção aos detalhes”, lembra Ariadne Tomczak, que atuou como gerente regional de seguradora e que hoje atua como consultora associada na De Bernt Entschev Human Capital. E é nesse ponto que surge mais uma grande diferença entre homens e mulheres: os homens decidem, e não sofrem mais por isso – e nem perdem o sono -, afinal a decisão já foi tomada. Já as mulheres precisam avaliar com cuidado, pois, se a decisão não se mostrar acertada, quem perde o sono são elas. E, mesmo se for acertada, elas ficam se perguntando se não haveria uma outra decisão melhor do que aquela. É a natureza feminina em ação.

Uma outra grande diferença é a forma de atuação. O homem, quando vai fazer algo, se concentra no objetivo e cumpre bem aquela tarefa. Mas só aquela tarefa. Se mais algum assunto precisar de sua atenção, primeiro ele termina a tarefa inicial para só então dar atenção à outra. Quer um exemplo? Experimente conversar com um homem enquanto ele lê o jornal ou assiste televisão. Ele pode até responder, eventualmente, mas pode ter certeza que ele não gravou nada do que você disse. Em outras palavras, o homem é especialista por natureza.

Já a mulher é multimídia. Ela é capaz de conversar com uma pessoa ao telefone enquanto responde a um e-mail pelo BlackBarry e assiste ao jornal na TV… andando na esteira da academia!  E fazem tudo isso como se fosse a coisa mais natural do mundo. Ou seja, a mulher é generalista.

Alzira MüllerNo universo empresarial, as duas características são extremamente valorizadas. Há momentos em que decidir rapidamente é crucial para a conclusão de um negócio, e outras em que a atenção aos detalhes pode ser decisivo para o sucesso da empresa no médio ou longo prazo.

É o Yin e o Yang. Um completa o outro, e ambos são fundamentais para o dia a dia da empresa.

No novo cenário empresarial deste início de século XXI, não existem mais cargos masculinos ou femininos. “O que existe é o profissional certo para o cargo certo”, explica Alzira Müller, que durante 12 anos esteve à frente do Núcleo Paraná da Funenseg em Curitiba. O que define uma contratação, hoje, é a competência e a experiência, e não mais o sexo do candidato. Mesmo assim, as mulheres continuam aumentando sua fatia no mercado de trabalho. Mas, se todos são unânimes em afirmar que o gênero do candidato à vaga não importa, o que vale é a competência, o que isso significa? Que as mulheres são mais competentes?

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A dedicação feminina

Feministas e machistas de plantão, acalmai-vos! A resposta é não. Afinal, competência não tem nada a ver com gênero. Nem o homem é mais competente que a mulher nem vice-versa. Competência é característica individual. A melhor explicação para as mulheres estarem se saindo melhor neste momento é bem mais simples: elas estão mais bem preparadas que os homens.

Durante séculos, o papel de provedor da casa sempre foi do homem, então o mercado de trabalho era um reduto essencialmente masculino, com as mulheres ficando responsáveis pela criação dos filhos e pelos cuidados com a casa.João Malta de Albuquerque Maranhão Neto

Quando as mulheres começaram a se aventurar no mercado de trabalho, passaram a ser vistas com desconfiança, e sempre tiveram de se superar para conseguir algum destaque. Para alcançar sucesso, passaram a estudar mais, a freqüentar os mais diversos cursos, estudar línguas, fazer uma especialização, etc. Enquanto isso, os homens (com raras exceções) só se preocupavam em manter o seu emprego, e só procuravam em se aperfeiçoar quando eram ameaçados por outros homens.

Ora, quando uma vaga de emprego passou a ser disputada sem favorecimentos entre homens e mulheres, os homens começaram a perder lugar para as mulheres, que estavam muito melhor preparadas. Um exemplo prático desse cenário é o massacre que ocorre em concursos públicos: a maioria esmagadora dos aprovados é do sexo feminino. “A mulher é mais estudiosa, sempre tirou notas melhores que os homens na escola, é mais organizada e mais dedicada”, destaca João Malta de Albuquerque Maranhão Neto, diretor regional sul da Liberty Seguros, ressaltando que o espaço que as mulheres estão tendo no mercado de trabalho é uma vitória delas. “As mulheres não estão ganhando espaço no mercado, até por que não é o tipo de coisa que cai do céu. Elas conquistaram seu espaço e o fizeram por merecer”, diz Maranhão.

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Superando desafios

Não é possível falarmos da trajetória de conquistas profissionais das mulheres sem tocarmos no delicado assunto do preconceito e do assédio. Mas aqui cabe uma ressalva: esses temas não são exclusividade do mercado de seguros, ocorrendo em todos os níveis em todos os segmentos da economia e da sociedade, resultado de milênios de uma Eliana Gomescultura machista exacerbada. Mas até isso elas superaram – e sem descer do salto!

Hoje, preconceito por se tratar de uma profissional mulher ainda existe, mas é coisa rara. “Por mais que nós, mulheres, tenhamos conquistado esse espaço, ainda encontramos, ocasionalmente, alguma resistência”, afirma Eliana Gomes, gerente da Mitsui Sumitomo em Curitiba. “Um corretor me disse, certa vez, que gostava muito da minha postura profissional, mas que se sentia mais seguro em negociar com um homem”. Ela lembra que, no início, esses casos realmente intimidavam um pouco. “Hoje eu levo com naturalidade, e acabo conseguindo espaço entre esses corretores também, conquistando sua confiança”, comemora Eliana.Sirlei Macarini

Elenícia Krisanoski concorda. Ela lembra que participou de inúmeros eventos e treinamentos na companhia em que era a única mulher. “Não posso dizer que não senti preconceito por parte de algumas pessoas do mercado. Tem sempre um pouco. Principalmente quando eu comecei. Hoje os tempos são outros, com as mulheres alcançando mercados e cargos de ramos que elas nunca participaram. Hoje, acredito que, aqui ou ali, ainda haja focos de preconceito, mas bem localizados e raros”.

Quando assumiu a gerência da Porto Seguro Seguradora no Paraná, em maio de 2003, Sirlei Macarini teve de enfrentar muita resistência, tanto por parte de alguns corretores como também de alguns colegas de seguradora. Além da responsabilidade de substituir uma das figuras mais carismáticas do mercado de seguros do Paraná, que era o Paulo Moll. “Foi um período de muito trabalho, entendimento, conversa, preparação e, principalmente, amadurecimento”, lembra Sirlei. “Mas a maior cobrança é pessoal. Nós acabamos exigindo muito de nós mesmas”, acrescenta.

Cleusa RegutaCleusa Reguta, sócia da Ação Corretora de Seguros, sentiu de perto esse tipo de preconceito. Logo após a morte do marido, ela teve de enfrentar a desconfiança de alguns clientes sobre a sua capacidade de assumir as rédeas da corretora. “A cobrança e a desconfiança sobre as mulheres é maior. Mas eu tive apoio total dos meus sócios, dos meus funcionários, das seguradoras. E mesmo dos clientes, que acabaram por me dar um voto de confiança”, lembra Cleusa.

Já o assédio é algo com que elas lidam com a milenar sabedoria feminina. “Depende da postura que você toma. A cantada pode até existir, mas acontece somente uma vez. Tudo dependendo da sua postura”, frisa Cleusa Reguta. E todas fazem coro com ela. “Depende da sua postura, de como você se coloca no mercado, para ter o respeito ou não”, reforça Ivone Macedo.

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Ponto de equilíbrioCristina Tucholski

Apesar de todo o sucesso feminino no mercado, as mulheres acreditam que a tendência é haver um equilíbrio em um futuro próximo. “Tanto o homem quanto a mulher têm capacidade, criatividade e competência. Todos nós somos inteligentes, apenas fazemos as coisas de forma diferente. Por isso acredito que em alguns anos os números fiquem mais equilibrados, tanto em número de funcionários, em número de profissionais e em cargos de chefia”, prevê Cristina Tucholski, sócia da Tucholski Corretora de Seguros.

Mas ainda há uma última barreira a cair. Ainda hoje, com raríssimas exceções, na comparação entre uma mulher e um homem que exercem cargos semelhantes, o salário da mulher ainda chega a ser, em muitos casos, de 10% a 30% menor que o do homem. Pelo que pudemos ver, motivos para isso não existem, pois competência, eficiência e dedicação são equivalentes entre homens e mulheres.

Está ai um ponto pra se refletir. Mas quem sabe isso não vira pauta de uma nova matéria da Seguros em Foco® no futuro?

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Texto e Fotos: Júlio Filho

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