Gerenciamento de Riscos no Mercado de Seguros

Gerenciamento de Riscos no Mercado de Seguros

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Streichholz - Lighting a match - by Sebastian RitterTexto: Júlio Filho – Revista Seguros em Foco®

Consultor: Carlos André Meyer Sabóia Cordeiro*


Todos os que atuam no mercado de seguros já ouviram falar no termo Gerenciamento de Riscos (GR). Mas você sabe, realmente, o que ele significa ou qual o tamanho de sua importância para a indústria de seguros?

Todos se lembram da famosa frase: “se algo pode dar errado, dará. E mais, da pior maneira, no pior momento e de forma que cause o maior dano possível”.

A Lei de Murphy tende a entrar em ação, mesmo quando todo cuidado foi tomado para garantir que falhas ou catástrofes não aconteçam.

Então o negócio é comprar uma figa, um trevo de quatro folhas, pé de coelho, etc. e torcer para que nada de ruim lhe aconteça, pois, se acontecer, a única coisa que lhe resta fazer é chorar.

Para não precisarmos contar apenas com a sorte e os patuás é que o Gerenciamento de Riscos vem, a cada dia, tomando mais espaço em todas as atividades. No mercado de seguros, então, esta prática está na própria essência do negócio.

No dia a dia, mesmo sem perceber, cada um de nós gerencia riscos o tempo todo. Quando optamos por andar alguns metros a mais para atravessar a rua na faixa de pedestres ou fechamos o vidro do carro ao trafegar por um local onde há o risco de sofrer um assalto, estamos gerenciando o nível do risco a que estamos expostos, no caso, minimizando a chance de sermos atropelados ou assaltados.

Por definição (e são muitas as definições), podemos dizer que Gerenciamento de Riscos é identificar e conhecer os riscos, promover ações que visem a eliminação ou redução dos mesmos e, por fim, transferir aqueles que não puderem se eliminados.

Da mesma forma podemos dizer que o “Gerenciamento de Riscos” é o conjunto de medidas adotado para conhecer, eliminar, diminuir e transferir os riscos, reduzindo assim a probabilidade de um evento que cause impactos negativos acontecer.

Buscar eliminar ou reduzir riscos faz parte do dia a dia das seguradoras. Quando uma seguradora oferece revisão de itens de segurança no veículo de seus segurados, ela está gerenciando seu risco. Afinal, um carro revisado tem uma probabilidade menor de sofrer um sinistro. Além do mais, a revisão serve como uma vistoria detalhada do veículo, fazendo com que ela tenha real noção do risco que ela está segurando. Quando oferece serviços como chaveiro e encanador, a seguradora está evitando que um pequeno problema se transforme em um eventual grande sinistro.

Já o corretor de seguros, pela característica de sua atuação, é – ou deveria ser – um gerenciador de riscos por natureza. Ele deve estar capacitado para realizar a identificação dos riscos. Precisa, junto ao cliente, ver quais são os riscos iminentes que precisam ser resolvidos com urgência, e quais as ações que podem ser feitas visando eliminar ou reduzir tais riscos. Aqueles que não podem ser eliminados poderão ser tratados e transferidos através da contratação de uma apólice junto a uma seguradora.

Pode até parecer, mas gerenciar riscos não é tão fácil e óbvio. Um bom gerenciamento de riscos exige atenção e, principalmente, conhecimento do negócio e área de atuação do cliente.

Cliente? Espere um pouco. No caso do corretor de seguros, o gerenciamento de riscos começa por arrumar a própria casa. O corretor, pessoa jurídica ou física, independente do seu tamanho, tem de começar fazendo a lição de casa e gerenciando os próprios riscos.

Vamos a um pequeno exemplo revisando alguns eventos possíveis e de alguns (mínimos) cuidados que devemos ter para conhecer e garantir o bom andamento de uma corretora PF ou PJ:

Riscos Administrativos e Pessoais – Seguro de vida, Saúde, Perda de Renda,

Riscos Materiais – Roubo equipamentos, Incêndio, Explosão, Danos elétricos, veículos, Granizo, Vendaval, back up de cadastros, documentos e sistemas,

Riscos Financeiros – Lucros Cessantes, Contratos, Responsabilidade Civil, obrigações tributárias,

Observamos que nem todas as citações nos remetem à necessidade de uma apólice de seguros. Por exemplo: se uma Corretora de Seguros ( PF ou PJ) não estiver em dia com suas obrigações tributárias ou em desconformidade com o Sindicato, Fenacor ou Susep, ele poderá perder uma licitação / negócios ou até mesmo sofrer sanções por parte dos órgãos que regulamentam o setor.

Pensem na visão do cliente. Quem é que compra um carro sem garantia? Quem é que quer fazer negócios com uma empresa que está em desconformidade com a legislação ou corre riscos de não poder atender caso aconteça algum evento inesperado?

A Corretagem de Seguros expõe ao risco de sofrer um processo de responsabilidade civil, afinal, ninguém é imune a um eventual erro. O detalhe é que, hoje, muitos desses erros estão sendo cobrados judicialmente. Uma apólice mal emitida ou um risco mal analisado pode vir a gerar uma ação de ressarcimento contra o próprio corretor. Será que esse corretor possui uma apólice de responsabilidade civil que faça frente a uma eventual reclamação, ou seu negócio corre o risco (!) de acabar se for alvo de um processo de responsabilidade por uma eventual falha no seu trabalho?

Ora…..se o corretor não gerencia os riscos de seu próprio negócio , como poderá querer gerenciar o risco de seus clientes e de suas empresas?

Ok. Casa arrumada, o corretor parte para cuidar dos riscos do seu cliente.

Quando se fala em gerenciamento de riscos, é preciso atrelar ao termo uma palavra simples e bem conhecida: vulnerabilidade. Faz parte do gerenciamento apontar ao cliente onde, quando e o quanto ele está vulnerável. O papel do corretor é fazer com que seu cliente entenda quais são seus riscos, aferindo o grau de exposição, e desenvolvendo ações para conter ou eliminá-los. Feito isso, ficará muito mais fácil apontar a necessidade de uma apólice de seguros para transferir os riscos que não puderam ser eliminados ou contidos.

Mas como fazer a identificação desses riscos? Um bom começo é fazer uma anamnese¹. Isso mesmo, assim como o médico, só é possível diagnosticar os riscos e desenvolver um bom trabalho se conhecermos o cliente e seus processos. Será que o cliente já teve um sinistro no passado? Em caso positivo, o que ele fez para tentar evitar que um novo sinistro aconteça? Será que se o cliente fizer determinada benfeitoria, o nível de risco a que está exposto diminuiria?

Outra importante função do gerenciamento de riscos é identificar se uma empresa não está desembolsando mais do que deveria em seguros pelo fato de não fazer um gerenciamento de riscos adequado ao seu negócio ou, simplesmente, porque o mercado não conhece o tamanho real desse risco. Em não conhecendo o risco, a seguradora tende a fazer uma precificação normal, de mercado, tratando a empresa como um segurado comum. E é nesse momento que o trabalho do corretor de seguros se destaca. Quando o corretor de seguros mostra para a seguradora que seu cliente possui gerenciamento de seus riscos, como controle de combate a incêndios através de brigadas treinadas, sprinklers e sistema de hidrantes, por exemplo, passa então a existir a possibilidade de uma redução na taxa do seguro.

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Gerenciando o risco do cliente

O primeiro passo do corretor no gerenciamento de riscos de seu cliente é identificar qual o segmento de mercado em que ele atua, visualizando quais as necessidades exigidas em sua atividade.

Mas, mesmo antes de se começar uma prospecção, que tal verificar se o seu cliente está de acordo com a legislação?

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Decreto nº 61.867, de 7 de dezembro 1967..

Seguros Obrigatórios

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CAPÍTULO IX – DO SEGURO OBRIGATÓRIO CONTRA RISCO DE INCÊNDIO DE BENS

PERTENCENTES A PESSOAS JURÍDICAS

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Art. 18 – As pessoas jurídicas, de direito público ou privado, são obrigadas a segurar, contra os riscos de incêndio, seus bens móveis e imóveis, situados no País desde que, localizados em um mesmo terreno ou terrenos contíguos, tenha, isoladamente ou em conjunto valor igual ou superior a vinte mil cruzeiros novos.

Parágrafo único – Para determinação da importância pela qual deverá ser realizado o seguro, serão adotados os valores de reposição dos bens. (Vide Resolução CNSP no 17, de 15.05.68).

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Outros seguros obrigatórios, do tipo dos exigidos pelos sindicatos de categoria, como um seguro de vida para os funcionários, muitas vezes não são contratados ou acabam sendo realizados de forma equivocada. O Diretor de uma empresa pede um seguro de R$ 5 mil por funcionário, o corretor preenche a proposta e todos estão felizes. Lição de casa feita? Pelo contrário. Se, por exemplo, a convenção estabelecer uma cobertura de R$ 20 mil, o cliente acaba de contratar – e com a ajuda do corretor -, um seguro que, para ele, não adianta de nada. Em caso de um sinistro, a seguradora irá pagar R$ 5 mil de indenização e o sindicato da categoria irá bater na porta da empresa cobrando os outros R$ 15 mil.

E esse tipo de situação é mais comum do que se imagina. O corretor precisa estar atento a esses detalhes. Isso, sim, é gerenciar riscos (além de evitar o risco de um processo de responsabilidade civil).

Informar ao cliente de que o seguro de incêndio que ele paga junto com o aluguel do imóvel protege, normalmente, apenas o proprietário ou que o seguro de condomínio não foi desenhado para garantir os bens de condôminos, são formas de apresentar as exposições de risco aos clientes.

Os contratos fechados pelo cliente também devem ser alvo de atenção por parte do corretor. Muitos desses contratos possuem cláusulas que impõe a contratação de diversas modalidades de seguros. Empresas franqueadas, por exemplo, são obrigadas contratualmente a possuir cobertura para as máquinas e equipamentos, Lucros Cessantes e Responsabilidade Civil, sob pena de multa ou sanção contratual. E é muito comum Indústrias fornecedoras serem obrigadas a possuir cobertura de Responsabilidade Civil (produtos).

O gerenciamento de riscos por parte do corretor junto ao cliente tem outras vantagens. Além de proporcionar ao cliente as coberturas de que ele realmente precisa, o GR permite que o corretor diversifique sua carteira melhorando o resultado do sua atividade e fidelizando o cliente.

Mapeando os riscos do cliente, o corretor conseguirá facilmente listar um mínimo de coberturas de que ele precisa. Seguro de vida, automóvel / RCF, incêndio, lucros cessantes, responsabilidade civil, roubo e equipamentos são coberturas que todas as empresas, independente de seu tamanho, precisam. O cliente pode até não contratar determinada cobertura, mas ele precisa saber que ela existe e está disponível para contratação na hora que ele quiser. E é preciso que o corretor ofereça a cobertura, afinal, na pior das hipóteses, é sempre melhor o corretor falar “- eu te disse” do que ouvir um “- você não me ofereceu” do cliente.

E como estamos falando em gerenciar riscos, é sempre bom registrar de alguma forma, que a cobertura foi oferecida. Evitam-se assim, eventuais processos de responsabilidade. Afinal, quando o assunto é prejuízo, a memória do prejudicado costuma falhar.

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Cultura de Seguro

Outro papel importante do gerenciamento de riscos é a propagação da cultura do seguro na sociedade.

O gerenciamento de riscos é um ótimo “garoto-propaganda”, que deveria ser mais utilizado pelas entidades e órgãos do setor para divulgar a importância do seguro.

Quando você explica o conceito e a aplicação do gerenciamento de riscos no dia a dia das pessoas e empresas, você está mostrando à população os riscos a que ela está sujeita e, consequentemente, os riscos que ela pode cobrir com a contratação de uma apólice de seguros, ampliando o conhecimento da importância e do papel do seguro, promovendo o crescimento e o desenvolvimento da indústria de seguros no país.

Também, é bom lembrar que há muito espaço para corretores trabalharem como profissionais de risco em empresas. O diretor ou gerente de riscos, além de controlar o desenho das coberturas securitárias necessárias para a proteção do negócio, também atua no relacionamento com o mercado buscando as melhores opções com os fornecedores do mercado. É o profissional responsável por eliminar, reduzir ou transferir a exposição de risco de uma empresa no mercado.

Apenas para não ficarmos olhando o Risco sob um aspecto negativo é bom saber que muitos autores o dividem em positivos e negativos. Tratando o risco como a “probabilidade da ocorrência de um evento”, devemos sempre considerar a Ameaça ou Oportunidade que este evento irá ocasionar.

O tema gerenciamento de riscos é amplo, envolvente e cheio de variantes. E a Revista Seguros em Foco® quer abrir um espaço para que você tire suas dúvidas sobre o assunto. Envie a sua pergunta para duvidas@segfoco.com.br, colocando no campo “Assunto” o termo “Gerenciamento de Riscos”. Elas serão encaminhadas para especialistas, respondidas e publicadas no site da Seguros em Foco® (www.segfoco.com.br). E as principais e mais recorrentes poderão ser publicadas também nas próximas edições da Revista Seguros em Foco®.

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¹Anamnese (do grego ana, “trazer de novo” e mnesis, “memória”) é a recordação ou lembrança do passado; reminiscência. Técnica utilizada para recordar fatos e situações. Em medicina, é uma entrevista utilizada por psicólogos e médicos que possui técnicas para poder estabelecer uma avaliação e diagnóstico do indivíduo, ou seja, é uma entrevista que busca relembrar todos os fatos que se relacionam com a doença e à pessoa doente.


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* Carlos André Meyer Sabóia Cordeiro (carlosandre@xmail.com.br) é Biólogo pela Universidade Federal do Paraná 1990.

Corretor de Seguros pela Fundação Nacional Escola de Seguros (1989), possui Pós Graduação em Direção Estratégica em Gestão de Seguros (Unicenp 2005/2006).

É sócio da Sektor Corretora de Seguros.

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