Mudanças Climáticas – O que está acontecendo com o nosso planeta, afinal?

Mudanças Climáticas – O que está acontecendo com o nosso planeta, afinal?

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Terra Linda

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As mudanças climáticas têm recebido especial atenção do mercado segurador, com várias empresas e entidades do setor promovendo ações voltadas à sustentabilidade e à consciência ambiental.

No último mês de setembro, o SindsegSC (Sindicato das Empresas de Seguros, Capitalização e Previdência em Santa Catarina) promoveu um Painel, aberto ao público, sobre Mudanças Climáticas. O tema, que por si só já desperta interesse e curiosidade, estava mais em voga do que nunca em Santa Catarina, que havia sofrido recentemente com enchentes em várias cidades do Estado. Foram mais de 60 municípios envolvidos e, mais uma vez, a bela cidade de Blumenau foi a que mais sofreu, com 280 mil dos 303 mil habitantes da cidade sendo afetados de alguma forma pela enchente, segundo informações oficiais.

J.J. Aumond
Juarês José Aumond

Durante o Painel, o Professor Juarês José Aumond, formado em Geologia, com Doutorado em Engenharia Civil e Mestrado em Geografia, que é um dos especialistas mais respeitados e consultados no que se refere a mudanças climáticas, fez uma análise da situação atual do clima em nosso planeta, mostrando os principais fatores que nos trouxeram até esta situação caótica do clima que estamos vivendo hoje.

E é exatamente sobre isso que iremos falar nesta reportagem. Você tem realmente noção do que está acontecendo com o clima do nosso planeta? Tem idéia da gravidade da situação ou acha que este é apenas um tema prá lá de surrado pelos chamados “ecochatos”, que não têm mais o que fazer?

Nesta primeira reportagem sobre Mudanças Climáticas, a Seguros em Foco® apenas mostrará o cenário atual, e como chegamos até aqui, de acordo com a abordagem do Professor J. J. Aumond.

J. J. Aumond se dedica ao estudo do Paleoclima (estudo do clima antigo) há mais de 20 anos. E por antigo não estamos falando de 50, 100 anos atrás, mas sim de milhares, milhões de anos. Como resultado deste estudo, Aumond explica que já é possível se fazer uma observação muito importante. “Hoje conseguimos fazer a constatação da ciclicidade do clima”, afirma, ressaltando que estamos vivendo mais uma. “A natureza continuará fazendo seu ciclo, e não deixará de fazê-lo só por que nós (humanos) estamos aqui”, destaca.

Falar sobre este assunto não é fácil. É complicado explicar para as pessoas um assunto que elas nunca vivenciaram. Como convencer alguém da importância de se tomar ações em prol do clima se esta é a primeira vez que a humanidade está passando pelo Efeito Estufa? Para muitas dessas pessoas, as consequências descritas pelos especialistas são fatores muito distantes da nossa realidade. Será mesmo?

Talvez uma das formas seja mostrar o que realmente está acontecendo com o nosso clima. Mostrando como era, como está e como ficará o clima no planeta se prosseguirmos nesta mesma linha que estamos seguindo hoje.

Afinal, o que está acontecendo no mundo e como isso já está nos afetando?

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Evidências do passado

Não pense que a mudança climática é um problema do mundo moderno. Desde que o mundo é mundo, ela sempre aconteceu. Os cientistas e especialistas têm evidências de que a alternância entra Era Glacial e Era Interglacial (Efeito Estufa) já aconteceu várias vezes no passado.

Estudos feitos no gelo mostram que essas mudanças ocorrem, ciclicamente, a cada 100 mil anos (Era Glacial) e a cada 10 mil anos (Efeito Estufa).

Apenas nos últimos 02 milhões de anos (a Terra tem cerca de 4,7 Bilhões de anos), os cientistas e pesquisadores detectaram 16 Eras Glaciais na Terra. A última Era Glacial terminou a cerca de 10 mil anos atrás. A rigor, já era para estarmos entrando em uma nova Era do Gelo. E não se iluda: uma Era Glacial seria infinitamente pior para nós do que os problemas que enfrentamos com o Efeito Estufa.

Durante uma Era Glacial, as geleiras avançam para Paralelos mais baixos, podendo atingir o Paralelo 30, no Hemisfério Norte. Essas geleiras, na realidade, são massas de gelo que podem chegar a mil metros de espessura, chegando a cobrir 30% do globo terrestre (incluindo os oceanos), com as temperaturas médias globais despencando cerca de 5° C. Pode parecer pouco, mas não é. Entre os anos de 1450 e 1890, houve uma pequena queda de temperatura de 0,7° C. Como resultado dessa “pequena Idade do Gelo”, metade da população da Europa morreu de frio, fome e peste. Imagine, então, uma queda global de 5º na temperatura. Seria devastador.

No Hemisfério Sul, por ter mais oceanos do que terra, o gelo não consegue chegar, mas as florestas tropicais e equatoriais desapareceriam, se transformando, na melhor das hipóteses, em cerrados ou caatingas, e o cenário na região sul do Brasil ficaria parecido com o que hoje é a Patagônia.

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TEMPO ATUAL
Era Atual
ERA GLACIAL
Era Glacial

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As Causas

O Efeito Estufa natural tem um papel importante na sobrevivência da humanidade, pois mantém a temperatura média global em 15° C. O problema em si não é esse.

O problema somos nós. O homem tem sido um agente climático como jamais a Terra viu igual. Nós surgimos há cerca de 200 mil anos (semana passada, em termos geológicos), na África. Migramos para a Europa há aproximadamente 40 mil anos atrás. Mas foi após a Revolução Industrial, em especial nos últimos 100 anos, que o homem se transformou no maior agente geológico de transformação do clima da história. Nunca uma espécie causou tanta transformação em um tempo tão curto quanto a nossa.

De acordo com o Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), as causas do aquecimento global são as emissões de CO2 dos carros, indústria e queimadas, o metano dos resíduos orgânicos, lixões, aterros e flatulência decorrente da pecuária, o óxido de nitrogênio dos processos agrícolas e industriais, além de outros gases e, também, as manifestações vulcânicas (as únicas das causas que não ocorrem por influência humana).

Os especialistas mostram três cenários para o ano de 2100, todos relacionados com a emissão dos gases do Efeito Estufa, variando de um aumento na temperatura mundial de 1, 8° C (que os cientistas acreditam que já não é possível manter) até 4° C. Para entendermos melhor os três cenários, vamos nos ater à quantidade de CO2 na atmosfera.

Nos últimos 650 mil de anos, a quantidade de CO2 na atmosfera manteve-se menor que 290 ppm (parte por milhão). Do ano 1900 até agora, a ação do homem vem fazendo esse número aumentar gradualmente, chegando hoje a 390 ppm.

A partir de agora, temos três opções:

A primeira: manter esse número em, no máximo, 450 ppm. Para isso, teríamos de conter, no mundo inteiro, os desmatamentos, alterar nossos hábitos de consumo e mudar a matriz energética mundial. Complicado!

A segunda: mantermos a quantidade de CO2 na atmosfera perto, mas abaixo, de 550 ppm. Neste caso, teríamos que tomar medidas emergenciais imediatas para evitar o impacto global das enchentes, vendavais, secas, verões mais quentes e, por mais paradoxal que possa parecer, invernos cada vez mais rigorosos e curtos. Difícil, mas plenamente possível.

Agora, se não conseguirmos evitar que o índice de CO2 atinja 550 ppm (terceira possibilidade), a vida, como conhecemos hoje, simplesmente acaba. Melhor não!

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Alguns vilões do Efeito Estufa
Poluição
Poluição
Queimadas
Queimadas
Desmatamento
Desmatamento
Vulcanismo
Vulcanismo

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Os efeitos

Segundo o IPCC, os efeitos em andamento, hoje, são a perda da estabilização do sistema climático mundial, com furacões com mais de 150 km/h, verões cada vez mais quentes (somente no último verão na Europa, foram registrados cerca de 20 mil mortes em decorrência do calor), aquecimento do Pólo Norte duas vezes mais rápido, risco de perda de alguns patrimônios naturais, perdas na biodiversidade e consequências sócio-econômicas para a saúde, infra-estrutura e recursos hídricos.

O Governo Britânico divulgou um relatório que alerta que, se nada for feito imediatamente, o efeito na economia será devastador. Segundo o relatório, a falta de controle do aquecimento global irá afetar a economia global na mesma escala das grandes guerras mundiais ou da Grande Depressão.

Aumentam os custos com a saúde pública e privada, com a maior frequência e intensidade de vírus – cada vez mais letais -, doenças contagiosas decorrentes das enchentes, gripes e problemas respiratórios decorrentes da mudança brusca de temperatura e queda na umidade do ar.

Além disso, o custo de produção das commodities fica cada vez maior, devido à instabilidade climática e riscos de desastres naturais.

O lado positivo (se é que tem um lado positivo nessa história toda), é que o grande número de estudos sobre o assunto demonstra que, pelo menos, o mundo inteiro está tomando consciência da gravidade da situação que estamos vivendo. Segundo um desses estudos, publicada na Revista Science, uma das mais conceituadas e respeitadas do mundo, se não houver mudanças, cerca de metade da população mundial sofrerá com a escassez de alimentos no fim deste século.

A agricultura perde, ano após ano, cada vez mais com a estiagem, geadas, granizos, chuvas torrenciais e perdas na biodiversidade, aumentando a possibilidade de pragas. Se pensarmos que, hoje, apenas 29 espécies de vegetais fornecem 90% da alimentação da humanidade, a perda de uma só dessas espécies pode agravar ainda mais a situação. Desses vegetais, três espécies de grãos – trigo, soja e arroz – são responsáveis por 75% dessa alimentação.

Um outro relatório, elaborado pela ONU e pelo Banco Mundial, alerta que cerca de 1,5 bilhão de pessoas deverão ficar expostos a desastres naturais até o ano de 2050, com prejuízos estimados em cerca de 185 bilhões por ano.

Já segundo o Fórum Humanitário de Genebra, as alterações climáticas têm causado cerca de 300 mil mortes/ano no mundo, com previsão desse número saltar para meio milhão em poucos anos, com perdas de cerca de U$ 125 bilhões em prejuízos econômicos, podendo chegar, nos próximos 30 anos, a U$ 340 bilhões.

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Brasil

As consequências do Efeito Estufa no Brasil também impressionam.

Se continuarmos nesse ritmo, o Amazonas poderá perder de 20% a 30% de sua floresta até 2100, área que se tornaria Cerrado (na pior previsão, esse índice chega a 60). Sempre é bom lembrar que o a Região Amazônica é responsável por grande parte das chuvas que ocorrem na Região Sul.

Também teremos grande perda de Biodiversidade e Recursos Naturais, alteração no padrão dos ventos e aumento da pluviosidade (chuvas) no Sul e no Sudeste (o que, aliás, já estamos sentindo). Ainda na Região Sul, aumento na ocorrência de tempestades, Ciclones Extra-Tropicais, chuvas e estiagens mais intensas. Redução das chuvas nas Regiões Norte e Nordeste, além de aumento do nível do mar de 1m a 1,5m até 2100, segundo o IPCC. Tudo isso aliado a verões mais quentes e invernos mais rigorosos e curtos.

A Mata Atlântica deverá perder até 70% de sua Biodiversidade, e os mangues aumentam devido ao aumento do nível do mar e aumento da salinidade. O nordeste perderá com o aumento do calor e a inundação das cidades litorâneas. E o semi-árido brasileiro se torna ainda mais seco, entrando em um processo de desertificação irreversível.

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Enchente Blumenau/SC - 2011
Enchentes em Santa Catarina (no detalhe, a cidade de Blumenau,

que frequentemente sobre com as enchentes) e seca no

Rio Grande do Sul. Contrastes de um clima instável

Seca

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O que fazer?

A UNESCO chama a atenção para as ações de prevenção e preparação dos programas de mitigação dos desastres, que constituem 05 etapas:

  1. Identificação dos riscos;
  2. Análise dos riscos;
  3. Medidas de prevenção;
  4. Planejamento para situações de emergência; e
  5. Iinformação Pública e Treinamento.

Ou seja, nós temos que nos preparar para enfrentar essa situação.

Precisamos saber identificar as áreas prioritárias e identificar as ações cujo objetivo seja a redução da frequência e intensidade dos desastres, intervindo junto aos atores – União, Estado, Municípios, Comunidades e suas lideranças -, realizando ações pró-ativas no sentido de minimizar os desastres e os efeitos, se preparando, de preferência preventivamente e não só corretivamente, como está sendo feito até hoje.

Mas será que ainda há soluções? Temos tempo ainda de desarmar essa bomba-relógio do aquecimento global?

Sim, há algumas ações que podemos tomar que, se não evitam, pelo menos poderão amenizar seus efeitos. Uma delas é promover a revegetação, o que ajuda a diminuir o teor de CO2 na atmosfera e reduzir o risco de deslizamentos. Outra providência é proteger os solos hidromórficos que, por terem alto teor de Carbono, ao entrarem em contato com a atmosfera, emitem grandes quantidades de CO2. Evitar queimadas e incentivar a reciclagem, poupando os nossos preciosos recursos naturais.

Mas, principalmente e prioritariamente, temos de buscar fontes alternativas de energia.

O problema é que, mesmo diante de um quadro desses, continuamos com políticas públicas equivocadas, pra não dizer inexistentes, no Brasil e em grande parte do mundo.

Enquanto os governos perdem tempo e dinheiro decidindo se vão ou não criar um sistema capaz de prever as tempestades, somente em 2010, 7,8 milhões de pessoas foram vítimas das consequências das chuvas em 18 estados brasileiros. No ano passado, 473 pessoas morreram, 101.298 ficaram desabrigadas; e 302.467 desalojadas. No total, em 2010, 1.211 municípios do país foram atingidos.

Como afirmou o Professor J. J. Aumond no evento de Joinville, nós já passamos do ponto em que poderíamos evitar as consequências da ação do homem sobre o clima. Por isso, temos de começar a pensar urgentemente em aumentar as nossas medidas preventivas, nos preparando para as consequências de anos e anos de agressão da natureza pelo homem.

Não custa lembrar: nós não estamos destruindo a Natureza. Nós estamos destruindo a nós mesmos. A Natureza se recupera, retomando o que lhe foi tirado, como, aliás, já fez milhares de vezes. Já a espécie humana está vivendo sua única chance. E é melhor não a desperdiçarmos.

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Na próxima edição, você confere como as mudanças climáticas estão afetando o mercado de seguros


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Fonte: Júlio Filho | Revista Seguros em Foco®

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